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FERIDA REABERTA

Família de Vanessa Ricarte participa de audiência pública na Capital e cobra responsabilização

Mãe e irmão de Vanessa denunciam falhas no atendimento e pedem melhorias na rede de proteção às mulheres

Audiência foi realizada no plenário da Câmara Municipal de Campo Grande - Foto: Gerson Wassouf/RCN67
Audiência foi realizada no plenário da Câmara Municipal de Campo Grande - Foto: Gerson Wassouf/RCN67

Pouco mais de um mês após o feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte, familiares da vítima participaram, nesta segunda-feira (25), de uma audiência pública na Câmara Municipal de Campo Grande. O encontro reuniu autoridades, representantes da sociedade civil e movimentos em defesa das mulheres para discutir falhas na rede de atendimento às vítimas de violência doméstica. A principal crítica da família foi direcionada à conduta da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), que atendeu Vanessa horas antes do crime.

Mãe, pai e irmão de Vanessa Ricarte, durante fala em plenário – Foto: Gerson Wassouf/RCN67

A mãe da jornalista, Maria Madalena, fez um discurso emocionado e cobrou a exoneração da delegada que prestou o atendimento. Para ela, a filha não recebeu a assistência necessária. “Se a delegada não podia alterar o boletim de ocorrência anterior, por que não fez um novo? Por que interrompia minha filha o tempo todo? Ela não só não quis ouvi-la, como ainda orientou que ligasse para o agressor e fosse para casa, sem qualquer proteção”, afirmou.

Maria Madalena também rejeitou a conclusão da Corregedoria da Polícia Civil, que apontou que todos os protocolos foram seguidos. “Não aceitamos essa conclusão. Vanessa perdeu a vida e agora querem manchar sua memória, como se ela fosse mentirosa. Exigimos justiça!”, declarou.

Críticas à impunidade e à falta de transparência

Walker Ricarte, irmão de Vanessa, defendeu maior transparência nos registros de violência doméstica. Ele destacou que o agressor tinha 11 passagens pela polícia, mas todas estavam sob sigilo, o que impossibilitou que a família tivesse conhecimento do perigo que Vanessa corria. “Esses casos não podem ser ocultados. Quem tem histórico de agressão precisa ter essa informação exposta, para que outras mulheres saibam com quem estão se envolvendo”, argumentou.

Ele também criticou a impunidade e a reincidência de agressores. “Hoje, um homem comete um crime e no dia seguinte está solto. A impunidade faz com que ele se sinta confortável para continuar. É preciso punições mais severas para que novos casos não aconteçam.”

Posicionamento da delegada da Deam

A delegada Elaine Benicasa, que era titular da Deam à época do crime, participou da audiência e defendeu o trabalho da Polícia Civil. Ela afirmou que a investigação foi feita com “cuidado extremo” e garantiu que todas as provas foram colhidas de maneira minuciosa.

Delegada Elaine Benicasa – Foto: Gerson Wassouf/RCN67

Os inquéritos, tanto o criminal quanto o administrativo, foram apurados nos mínimos detalhes, com provas documentais e testemunhais. O caso foi encaminhado ao Judiciário com o indiciamento do agressor por feminicídio, violência psicológica e cárcere privado”, afirmou.



Sobre a suposta falha no atendimento à jornalista, a delegada preferiu não comentar diretamente, afirmando apenas que as investigações internas estão concluídas.

Repercussão e cobrança por mudanças

A audiência pública também teve a participação de representantes de políticas para mulheres no estado e no município. A subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres de Mato Grosso do Sul, Manuela Nicodemos, apontou que a política de abrigamento de mulheres vítimas de violência precisa ser revista, principalmente para atender mulheres indígenas. “Elas não se sentem acolhidas nas casas-abrigo atuais. Precisamos rever esses fluxos e garantir que todas as mulheres, independentemente de sua origem, tenham um local seguro para se proteger.”

A secretária-executiva da Mulher, Angélica Fontanari, apresentou dados do Dossiê Mulher 2024, que revelou que 20% das vítimas de violência doméstica em Campo Grande são financeiramente dependentes de seus agressores. Ela destacou que projetos como a Escola de Capacitação para Mulheres (Escape) e o programa Emprega Mulher foram criados para ajudar essas mulheres a conquistar independência econômica.

Mara Dalila Teixeira, organizadora do grupo “Justiça Delas MS”, que reúne mais de 300 mulheres no estado, afirmou que a indignação com o caso de Vanessa uniu ainda mais o movimento. “Vamos cobrar essa melhora no atendimento às mulheres. A delegada pode dizer que tudo foi feito, mas não foi! A própria Vanessa deixou áudios que comprovam isso. O atendimento foi falho e precisamos garantir que isso não aconteça com mais ninguém.”