No chamado “Dia da Libertação”, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializou novas tarifas comerciais sobre importações. A decisão, tida como uma tentativa de “proteger a economia americana”, já repercute internacionalmente — e em Mato Grosso do Sul, estado fortemente exportador, o impacto é direto e inevitável.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Mato Grosso do Sul exportou aproximadamente US$ 9 bilhões (FOB) em mercadorias para o mercado internacional em 2024.
Desse total, US$ 669 milhões (FOB) foram destinados aos Estados Unidos, com destaque para a carne bovina congelada e desossada, responsável por mais de US$ 215 milhões em exportações no período.
Apenas neste ano, mais de USS$ 84 milhões (FOB) foram exportados ao país norte-americano, o que dá aproximadamente R$ 475 milhões
Agora, com a aplicação de uma tarifa-base de 10% sobre todas as importações brasileiras — e tarifas ainda mais altas para produtos de países como China e União Europeia — o custo das mercadorias brasileiras nos EUA aumentará. Isso pode reduzir a competitividade dos produtos sul-mato-grossenses no mercado norte-americano.
“O americano vai consumir menos”, diz economista
Para o economista Eduardo Matos, o reflexo das tarifas será imediato:
“Uma nova tarifa deve elevar o custo de venda de determinadas mercadorias. Qualquer novo custo é repassado através do preço para o consumidor final. O americano, então, deve consumir menos dos produtos que para eles são importados.”
Segundo ele, a carne bovina — carro-chefe da exportação sul-mato-grossense para os EUA — tende a sofrer os primeiros efeitos. Além disso, minério de ferro, utilizado em indústrias de base nos Estados Unidos, também deve encarecer.
“Quando o consumidor americano se deparar com um produto local e outro que traz em si uma cadeia importada, ele vai preferir o nacionalizado”, explica.
Frigoríficos com presença nos EUA têm vantagem estratégica
Apesar do cenário de alerta, Eduardo Matos destaca uma vantagem das grandes indústrias do setor de carne, como JBS e BRF, que já atuam dentro do território americano.
“Elas já têm plantas nos Estados Unidos, o que inclusive é alvo de críticas por parte de produtores locais. Mas há uma dependência real da carne abatida no Brasil. O boi vivo é caro de transportar e exige logística complexa.”
Mesmo assim, o encarecimento de produtos como carne e minério pode causar um desequilíbrio momentâneo na balança comercial do estado.
“Não é algo definitivo. O mercado tende a se reajustar. Além disso, Mato Grosso do Sul tem uma pauta exportadora variada, tanto em produtos quanto em parceiros comerciais”, avalia Matos.
Olhos voltados para a Ásia — e para a Rota Bioceânica
Atualmente, a China representa a maior fatia das exportações do estado, com US$ 4,5 bilhões (FOB) em 2024. O economista vê na Ásia uma alternativa sólida para eventuais perdas com o mercado americano, citando o crescimento da demanda em países como Índia, Japão e a própria China.
Além disso, ele destaca o papel estratégico da Rota Bioceânica, que ligará o Brasil aos portos do norte do Chile, abrindo caminhos logísticos mais rápidos e baratos até o continente asiático, por meio do oceano Pacífico.
“A redução no custo do frete com a rota pode compensar parte do aumento nos custos causados pelas tarifas dos EUA. A concretização dessa rota será essencial para manter nossa competitividade global.”
Recessão global exige ação do Estado
Outro fator de preocupação levantado por Eduardo Matos é o cenário de desaceleração econômica mundial, que deve afetar principalmente países periféricos e exportadores de commodities, como o Brasil.
“O Brasil tem muito a perder com uma retração. E é o Estado que deve agir como agente anticíclico, com políticas públicas assertivas. O mercado, sozinho, não corrige esses ciclos de baixa”, conclui.